Jornada Mulheres em Luta: Democracia, Soberania e Autonomia toma as ruas de Belo Horizonte

Militantes e dirigentes de movimentos sindical, sociais, estudantis e populares se uniram a educadoras e educadores e saíram em marcha da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) até a Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte, na tarde desta quinta-feira (8), para realizar o ato do Dia Internacional de Luta das Mulheres. A manifestação fez parte da jornada Mulheres em Luta: Democracia, Soberania e Autonomia, iniciada na terça-feira (6), quando elas montaram um acampamento no pátio da ALMG. A jornada foi organizada pela Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG), Marcha Mundial de Mulheres e Frente Brasil Popular.

Na quarta-feira (7), houve debates, oficinas e noite cultural. Na manhã desta quinta-feira (8), as mulheres ocuparam o Tribunal de Justiça (TJMG) e também fizeram um escracho na porta dos gabinetes regionais de deputados federais que foram eleitos pelo povo mineiro e que governam para as elites.

Neste ano, as mulheres definiram como tema central da luta a reconquista da democracia no Brasil. Diante do golpe em curso no país e de ataques cada vez mais intensos contra a classe trabalhadora as mineiras denunciam o desmonte do Brasil através da retirada de direitos, do saque ao patrimônio natural e do avanço de legislações conservadoras que interferem diretamente sob a vida das mulheres.

“Trago a saudação dos sindicatos CUTistas e de todo o movimento sindical. E uma saudação especial à juventude, que faz com que cada dia de luta seja fundamental. Neste dia, é bom que rememoremos a história, antes que eles a apaguem. O golpe de Estado foi contra uma mulher. Nas páginas amarelas, a revista Veja deixou claro, dias depois: voltem para casa, na política não tem lugar para vocês. Pelo contrário, vamos estar em todos os lugares, o quanto for necessário e o tempo que for necessário. Não transigiremos nos nossos direitos. Não há opressão que nos pare. Não vamos recuar diante desta elite patriarcal, misógina e machista. Nosso recado está dado neste Dia Internacional de Luta das Mulheres: nós seguiremos na luta, com nossos corpos, nas ocupações, no campo e na cidade. Quando uma de nós perde a voz, a outra grita mais alto. Nenhum direito a menos. Quando o feminismo avança, o machismo recua”, afirmou Beatriz Cerqueira, presidenta da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT/MG) e coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE/MG), durante o ato na Praça Sete.

“Fomos capazes de trazer a Assembleia Legislativa para a Praça Sete, onde fizemos um grande debate, das 10 horas às 18 horas. Este foi um dia marcado por protestos e também por esperança, com a unidade. A luta continua, por mais mulheres no poder e na política”, afirmou a deputada estadual Marília Campos (PT)

“Salve mulherada maravilhosa. Tenho fama de ser chorona, mas é impossível não me emocionar a ver uma praça tão cheia. Estava na luta pelo Hospital Sophia Feldman, juntamente com ativistas, artistas, mulheres trans. Nós, mulheres, precisamos ocupar os espaços institucionais, câmaras municipais, Legislativo, Judiciário para fazer uma política de luta. As mulheres têm que colocar seus corpos à disposição de lutas não só nas ruas, mas nesses espaços e transformar nossas pautas em propostas concretas. Com mandatos feministas feitos por mulheres para mulheres”, disse a vereadora Cida Falabella (Psol).

Duda, representante das mulheres trans, também falou durante o ato e protestou contra o preconceito. “Represento as mulheres trans, uma voz que vem sendo silenciada. Nós, mulheres trans, lutamos pelo direito de humanidade. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) está discutindo qual banheiros vamos usar. Dois juízes já votaram e um pediu vistas. Também lutamos pela terceira idade, pois nossa expectativa de vida é 35 anos. Lutamos também por educação, saúde , por direito ao sol, pois nos consideram corpos sujos e indesejáveis, uma patologia. Gays, lésbicas, transexuais e sapatões são contra o capitalismo. Não temos qualquer chance no espaço burguês.”

Na Praça Sete, educadoras e educadores, movimentos sindical, sociais e estudantis se uniram a manifestantes em defesa do Hospital Sophia Feldman que estavam concentrados na Ocupação Carolina Maria de Jesus. “Com maioria de mulheres no quadro de funcionários, o Sophia Feldman é um hospital de referência, em que os partos são realizados com respeito e tecnologias não invasivas. O parto tem que ser um momento de prazer e o Sophia desenvolveu uma gestão compartilhada de vanguarda, sendo uma referência nacional. Mesmo assim, sofre com um subfinanciamento. Prefeitura e governo do Estado precisa repassar recursos para o hospital, que está sendo sucateado”, disse Juliana do Carmo, funcionária do hospital e integrante do movimento Somos Sophia.

“Construímos um coletivo de 44 movimentos. Estamos aqui pela vida das mulheres e nenhum direito a menos. Precisamos da união porque a luta está pesada. O peso da crise econômica, política e ética está sendo jogado nas costas das mulheres, com as medidas e as reformas dos golpistas. Por isso, dizemos basta, mexeu com uma, mexeu com todas. Não permitiremos o sucateamento do Sophia Feldman, referência no Brasil. Denunciamos a desigualdade nas condições de trabalho. E, a violência. O Brasil é o sétimo colocado no mundo em violência contra as mulheres. E estamos no enfrentamento pelo direito à moradia. Enquanto moradia for privilégio, ocupar será um direito. Estamos felizes por estarmos nas ruas avisando ao mundo patriarcal que não nos calaremos. Reagiremos à discriminação, ao racismo, ao preconceito, ao feminicídio”, afirmou Dirlene Marques.

Ocupação do Tribunal de Justiça

Na data que marca o Dia Internacional de Luta das Mulheres, as mineiras deram o recado: Se a justiça é injusta as mulheres não são! Cerca de mil mulheres ocuparam na manhã desta quinta-feira (8), a sede do Tribunal de Justiça no Estado.

O poder judiciário, junto com os aparelhos da mídia comercial, foram ferramentas fundamentais para a implementação do golpe de estado pelo qual passa o Brasil, desde o impeachment da presidenta Dilma. O poder judiciário, que deveria cumprir o papel de defender a constituição e os direitos sociais, tem se mostrado favorável e complacente com a política do imperialismo internacional. E esta é uma situação que deve ser denunciada nacionalmente: A utilização do poder judiciário e dos aparatos militarizados do Estado para atingir os inimigos do sistema econômico capitalista.

O ponto fraco dos golpistas, sem dúvida são as eleições presidenciais de 2018. Todas as pesquisas eleitorais apontam o Lula como o principal nome apresentado pela população para assumir a presidência. Por isto, a utilização do poder judiciário, na fraudulenta condenação de Lula, é claramente um processo ilegal-judicial de consolidação do golpe, se aparando na estrutura do sistema de justiça brasileiro. “Hoje julgamos e condenamos a justiça brasileira, por seu caráter elitista, antidemocrático e antinacional”, declarou Bernadete Monteiro, da Marcha Mundial das Mulheres.

Golpistas escrachados

Além da ocupação da sede do Tribunal de Justiça, as mulheres também fizeram um escracho na porta dos gabinetes regionais de deputados federais que foram eleitos pelo povo mineiro e que governam para as elites.

Atualmente tramita no Congresso Nacional, uma série de propostas neoliberais que cortam recursos destinados à saúde e à educação, como a PEC 55 que foi aprovada em 2016, assim como outras Emendas Constitucionais e Projetos de Leis que retiram direitos sociais e trabalhistas garantidos pela Constituição de 1988. Sem falar nas reformas inconstitucionais proposta por Michel Temer e aprovadas por este Congresso golpista que só legisla para os empresários e a burguesia.

Além disso, apresentam um conjunto de projetos que atentam diretamente contra a vida das mulheres, como a PEC 181 e o PL “Estatuto do Nascituro” que proíbe o direito ao aborto, até mesmo em casos já legais, tais como: gestação decorrente ao estupro e risco de morte para a mulher. “Estamos aqui para mostrar para estes deputados que as mulheres não se esqueceram do que fizeram contra nós. Não nos calaremos diante de nenhuma injustiça e de nenhum ataque”, disse Fernanda Maria, do Levante Popular da Juventude.