
A UFMG deu um passo importante na promoção de direitos, acolhimento e visibilidade da comunidade LGBTQIA+ nesta terça-feira, 23 de junho, com a abertura do 1º Mês do Orgulho LGBTQIA+ da universidade. Até o dia 26 de junho, as atividades discutirão políticas de acesso, permanência e ampliação de direitos, com o objetivo de garantir igualdade de oportunidades para todos, todas e todes.
A abertura foi conduzida pela vice-reitora da UFMG, professora Alamanda Kfoury Pereira, que participou on-line, de Brasília. Ela falou sobre a importância de garantir o acesso e a permanência para todos e todas. “Uma construção verdadeiramente inclusiva, igualitária e permanente de combate ao preconceito — este evento representa mais que uma celebração: ele reafirma nossa disposição de fortalecer espaços de escuta, acolhimento e reflexão e de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e acolhedora”, afirmou a vice-reitora.
A presidenta da Comissão de Diversidade de Gênero e Sexualidade da UFMG, professora Joana Ziller, contou que as comemorações do Orgulho começaram de forma despretensiosa: três integrantes se encontraram no carnaval, em um bloco LGBTQIA+, e uma delas sugeriu realizar uma semana do orgulho. “Essa ideia foi abraçada por nós, depois pelo coletivo da comissão e, em seguida, pela Reitoria”, relatou.
“Esta primeira semana LGBTQIA+ está ancorada em um amplo histórico de pesquisa e extensão desenvolvido por esta universidade sobre a temática. Um levantamento no Sistema de Organização de Memória e Saber (SOMOS) mostra que 66 professores, em 14 das 20 unidades acadêmicas, já publicaram artigos acadêmicos relacionados ao tema. São quase 200 teses e dissertações já defendidas na UFMG. Ao longo dos últimos dez anos, foram registrados 56 projetos de extensão, e hoje estão vigentes 16 projetos em sete unidades da universidade”, afirmou, destacando que os números evidenciam a presença da população LGBTQIA+ na instituição.
PRORH-UFMG reforça papel institucional na luta pela igualdade
A pró-reitora de Recursos Humanos, professora Carla Aparecida Spagnol, convocou as pessoas a pensarem, para além da celebração do Orgulho LGBTQIA+, de forma crítica e comprometida, sobre os desafios que ainda persistem na garantia de direitos e na construção de ambientes verdadeiramente acolhedores.
“A principal questão que o tema do Orgulho LGBTQIA+ nos apresenta é a necessidade de enxergarmos as pessoas em sua integralidade, reconhecendo que o respeito à diversidade não é um favor nem uma concessão institucional — é um direito, é um princípio ético, é um compromisso democrático. Quando falamos sobre o Orgulho LGBTQIA+, não estamos falando apenas de identidade ou representatividade: estamos falando da defesa da dignidade humana, do direito de existir plenamente, de pertencer e de ocupar espaços institucionais sem medo, sem silenciamento e sem discriminação”, pontuou.

SINDIFES-MG defende políticas permanentes de inclusão e a criação de um censo da população LGBTQIA+ na UFMG
A coordenadora-geral Cristina Del Papa destacou a importância de transformar as discussões sobre diversidade em políticas institucionais permanentes. Durante sua fala, ela relembrou sua trajetória de 32 anos na UFMG e os desafios enfrentados como mulher, negra, lésbica e dirigente sindical.
Cristina ressaltou que a realização do 1º Mês do Orgulho LGBTQIA+ representa um marco para a universidade, por inserir a pauta da diversidade no calendário institucional e reforçar o compromisso da UFMG com a promoção dos direitos humanos. “É um passo pequeno neste momento, mas que será grande futuramente”, afirmou.
A coordenadora também defendeu a criação de um censo da comunidade LGBTQIA+ na UFMG, abrangendo estudantes, docentes e técnicos-administrativos, como forma de subsidiar a elaboração de políticas públicas efetivas. “Não dá para fazer política sem saber quem somos, onde estamos, o que fazemos e quantos somos”, destacou.
Entre as propostas apresentadas pelo Sindicato, Cristina apontou a necessidade de garantir o respeito pleno à identidade de gênero e ao uso do nome social, uma vez que, apesar da existência de normas institucionais, ainda há dificuldades práticas enfrentadas por servidores e estudantes em diversos sistemas da universidade.
Ela também defendeu a ampliação das ações de combate à LGBTfobia, a criação e o fortalecimento de canais de denúncia, a promoção de campanhas de letramento e capacitação da comunidade universitária e a construção de uma comunicação verdadeiramente inclusiva.
Ao encerrar sua participação, Cristina reforçou que a luta pelos direitos da população LGBTQIA+ deve ser permanente e resumiu o significado do mês do orgulho em uma frase: “Orgulho é porque nos orgulhamos de quem somos, apesar dos preconceitos”.
Professor da APUBH apresenta iniciativas na UFMG
O professor de Museologia da UFMG e coordenador do Observatório LGBTQIA+, Jezulino Lício Mendes Braga, representante da APUBH, destacou que a associação pauta o tema há muito tempo e conta com diversas iniciativas para debatê-lo na universidade.
“Agora estamos em parceria com o Museu da Diversidade de São Paulo, inclusive com um curso de letramento para a diversidade. No ano que vem, vamos conseguir inserir esse curso na plataforma de educação a distância da universidade. A parceria tem sido muito importante para aproveitar a experiência que eles já acumularam no letramento da diversidade”, afirmou.
Ele também informou que Luiz Morando, um dos principais pesquisadores da memória e da comunidade LGBTQIA+, doou seu acervo à universidade, onde hoje está custodiado na biblioteca da FAFICH.
“Batizamos esse acervo de Cintura Fina LGBTQIA+ em homenagem a uma travesti negra que viveu em Belo Horizonte e que também foi declarada moradora honorária da cidade”, concluiu.
A importância das políticas de inclusão
O servidor do Centro Pedagógico, Samuel Moreira Marques, compartilhou um pouco de sua trajetória e vivência na UFMG.
“Cheguei à universidade em 2005 como uma jovem lésbica que estava fora do armário. Naquela época, a realidade era muito diferente da que vocês veem hoje. E, se cheguei como uma jovem lésbica e hoje vocês me veem com esta barba no rosto, é porque, ao longo desses 21 anos, muita coisa mudou, inclusive meu nome e meu gênero”, relatou.
Samuel também destacou a importância da autodeclaração e da visibilidade das pessoas trans no ambiente universitário. “É importante sermos visíveis, porque isso mostra que nós também estamos aqui, ocupando esses espaços e construindo a universidade”, afirmou.
Ele ainda lembrou das dificuldades enfrentadas para garantir o reconhecimento de sua identidade institucionalmente. “Demorei cinco anos para conseguir atualizar meu nome social em todos os sistemas e espaços da universidade. A resolução ainda apresenta desafios para se tornar plenamente efetiva, mas ela é uma conquista muito importante”, concluiu.
Programação
No dia 24, às 11h, a programação continua na sala multimeios da Faculdade de Educação (FaE) com a mesa Estudantes e políticas institucionais LGBTQIA+. O encontro, que discutirá o cenário atual de permanência e integração dos estudantes, terá a participação de Hiris Pereira, do coletivo Cintura Fina, e de Licínia Maria Corrêa, pró-reitora de Assuntos Estudantis.
A conferência de Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), será um dos destaques da programação no dia 25, às 11h, no auditório da Reitoria. Intitulada Universidade e democracia: acesso e permanência trans, a atividade integra o ciclo de conferências do centenário da UFMG.
O evento é aberto ao público e contará com mesas, conferências e programação cultural. Entre as atrações fora do campus, destaca-se a mostra de vídeos LGBTQIA+ na fachada digital do Espaço do Conhecimento, na Praça da Liberdade.
O encerramento será no dia 26, às 19h, no campo de futebol da Assufemg, no campus Pampulha, com show do artista Rafael Ventura.







